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Eu sei o que você fez na quarentena passada – Anaïs Guillin

Como o isolamento social nos transformou em fiscais de comportamento alheio

O despertador toca. Levanto, preparo meu café, minha torradinha com manteiga e começo a passar, ininterruptamente, por vídeos e mais vídeos nos Stories. Fecho o Instagram, frustrada. Festinhas entre vários amigos, bares lotados, passeios de barco e churrascos lotam o meu feed. Respiro fundo. A quarentena tem me deixado mais amarga do que café queimado.

Desde o início da pandemia no Brasil, lá se vão quase cinco meses. São mais de 100 dias em estado de alerta, onde nos vemos obrigados a desinfetar absolutamente tudo que tocamos, saindo de casa para fazer compras como se fôssemos nos deparar com a morte logo na esquina. Entre aplicativos de meditação, vídeos de yoga, milhares de lives, zoom com os amigos, faxinas eternas e uma nova coleção de plantas em casa, tentamos manter a nossa saúde mental por um fio. E o pior: não há uma previsão de melhora desse cenário. Cansados, frustrados, nos tornamos então, uma espécie de vigias do comportamento alheio. Passamos, incessantemente, por fotos e vídeos de pessoas descumprindo regras do isolamento social. Olhamos com rancor para aqueles que teimam em não utilizar máscara na rua. Às vezes, chegamos a compartilhar com algum amigo a foto de um conhecido em comum, bebendo cerveja em um churrasco lotado, apenas para podermos desabafar sobre o quanto aquilo é errado. A quarentena nos transformou em fiscais. Toda hora, surge o pensamento: “se todos tivessem respeitado as medidas de isolamento desde o início, não estaríamos arrastando essa situação há tanto tempo”. Vemos fotos e vídeos das pessoas na Europa voltando à normalidade e só conseguimos sentir aquela pontada de inveja.

Com o tempo, começamos a perceber que não dá mais. Com a flexibilização das medidas de isolamento em pleno auge da pandemia, nos sentimos feitos de palhaços. Não tem saúde que aguente tanto tempo. Para alguns, não tem situação financeira que aguente também. Começamos, então, a nossa própria flexibilização. Encontramos um amigo. Saímos para dar uma caminhada, uma volta de bicicleta. Saímos para ver o mar. E aí, nos tornamos alvo dos outros fiscais, aqueles que – ainda – estão aguentando o isolamento total em casa, firmes e fortes. Estes começam a julgar aqueles que estão dando leves escapadas da quarentena porque sentem que estão sendo feitos de palhaços. Trancados em casa, abrindo as redes sociais e vendo a vida acontecer como se a pandemia nunca tivesse existido. É compreensível a frustração, claro. Já estivemos no lugar deles.

A verdade é que não tem jeito. Julgamos aqueles que não ficaram em casa no início da quarentena. Se sairmos no 100º dia, seremos julgados por aqueles que estão em casa há 110 dias. Se essas pessoas saírem de casa no 111º dia, serão julgadas por aqueles que estão trancados há 120 dias. Cansados, amargurados, ranzinzas e mentalmente esgotados, nos vemos presos em um vórtice de frustração e negatividade, onde apontamos o dedo uns para os outros.

A fadiga é real. Não podemos nos esquecer completamente da situação em que estamos, mas também não dá para negligenciar a nossa própria sanidade. Será que um dia conseguiremos olhar para os nossos colegas sem essa nuvem de rancor sobre a nossa cabeça? Difícil dizer. Enquanto isso, esperamos ansiosamente pelas inúmeras vacinas que estão por vir. Chinesa, inglesa, russa, tanto faz. Estamos aceitando até injeção – ops, vacina – na testa, só para podermos sair de casa livremente e encontrar nossos amigos e parentes. Sem máscara, sem álcool em gel, sem distanciamento social e sem rancor pelo colega (mas se quiser, pode).

Texto por Anaïs Guillin

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